segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A dança dos contrários

              Assistimos a cada dia a polarização da sociedade brasileira de forma cada vez mais acirrada e agressiva. A princípio tratava-se de questões político partidárias, o que tornava possível manter-se razoavelmente a distância desde que não existisse interesse pessoal em jogo. Entretanto, a situação foi se complicando de tal forma, que questões muito mais profundas e delicadas foram invadindo o cenário e descortinando situações que atacam valores inestimáveis; o que torna impossível não escolher um lado nessa dança dos contrários.
             O que está acontecendo afinal? Por que essa loucura com nossas crianças? Por que a censura só vale para atender determinados interesses? O que se entende por democracia? Por que as pessoas que clamam por socialismo deleitam-se com os mimos do capitalismo? Por que algumas pessoas sérias permanecem na defesa do indefensável, como se estivéssemos apenas brincando de cabo de guerra, sem considerar a gravidade da situação atual?
          É fato que estamos todos dançando feio nessa competição desenfreada, e nesse ritmo alucinado certamente tontos com a velocidade dos fatos e a agressividade dos sons, nos excedemos em nossos comentários, nas nossas ações e, sobretudo, esquecemos que não se trata de uma competição qualquer. É muito mais profundo e duradouro que uma mera dança, trata-se do que somos e em que acreditamos, que país queremos para os nossos descendentes…Precisamos agir como adultos, deixar a inconsequência da competição sem propósitos e pensar na escolha que precisamos fazer nesse momento grave.
        Por essa razão, embora lamente termos chegado a esse ponto, eu, que já acreditei e me emocionei com a ideologia de esquerda, mudei de lado. Escolho repensar o modelo de país que temos; escolho pensar por mim mesma, sem as amarras de emissoras, partidos ou profissões; escolho um olhar crítico, sem enaltecer personalidades específicas, lembrando que ninguém está acima do bem e do mal, portanto é preciso discernimento e visão crítica. Sempre poderei mudar de opinião porque não sou refém de partido ou ideologia alguma, sou humana e naturalmente posso errar nas minhas escolhas, repensar e mudar de postura. Mas nesse momento, escolho a direita, porque perdemos o rumo, perdemos o ritmo, e o que ouvimos são gritos tortuosos e ranger de dentes. Só há um meio de retomar o equilíbrio, escolher um lado e manter-se firme e coerente nessa escolha. Não por interesses pessoais, birra ou comodismo, mas pelo reconhecimento de que o país é o palco e ele está ruindo sob nossos pés.
Aparecida Cunha


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Irmãos distribuem livros em escolas e comunidades pobres do país

“É gratificante poder dividir a minha paixão pela leitura.” Maria Caltabiano, ao lado do irmão Mateus (Leo Martins/Veja SP)
Quando eram crianças, o estudante de engenharia Mateus Foz Caltabiano, de 19 anos, e sua irmã, Maria, 17, costumavam doar roupas e brinquedos a pessoas carentes, incentivados pelos pais. Em 2013, tiveram uma ideia diferente: arrecadar livros com amigos e conhecidos. A ação foi um sucesso. “Conseguimos 5 000 exemplares, que abarrotaram uma sala inteira de nossa casa”, conta o garoto.
Para fazer a distribuição, os dois embarcaram, com a família, para o Maranhão. “Elegemos esse destino porque é o estado com um dos menores índices de desenvolvimento humano do país”, explica o rapaz. Eles pagaram a viagem com recursos próprios. Foram 37 dias de expedição, passando por comunidades quilombolas, aldeias indígenas e regiões ribeirinhas.
Encantados com a experiência, os irmãos decidiram criar, em 2014, a lêComigo, organização sem fins lucrativos que fornece livros a bairros pobres e escolas públicas pelo Brasil. Boa parte das obras é arrecadada em eventos promovidos pela Organização da Sociedade Civil (OSC).

Em quase três anos de trabalho, foram distribuídos 18 000 títulos infanto-juvenis em estados como Amazonas e Tocantins. Cada local recebe um kit com cerca de 170 exemplares. A dupla faz a entrega pessoalmente, em geral durante as férias escolares, e paga do próprio bolso as despesas, incluindo transporte e estada. O valor pode chegar a 3 000 reais para cada um, dependendo da cidade escolhida.
“Nossa biblioteca era muito pobre”, conta Sheila Ferraz, 37, supervisora pedagógica de uma escola de Jacinto, em Minas Gerais. “Quando os alunos receberam o presente, foi uma festa.” Em São Paulo, dezenas de instituições estaduais de ensino, em bairros como penha, na Zona leste, e Capão Redondo, na Zona sul, já foram contempladas.
Agora, os jovens planejam obter patrocinadores para ampliar o número de pessoas atendidas. “Sempre fui apaixonada pela leitura, e é gratificante poder dividir isso com quem tem menos recursos”, afirma Maria. “Essa trajetória me deixou muito mais comprometido com o meu país”, completa Mateus.
Por  Sara Ferrari, na Veja SP/livros e pessoas

domingo, 20 de agosto de 2017

ONU lança biblioteca digital com 900 mil documentos à disposição do público

Uma das salas da Biblioteca Dag Hammarskjöld, na sede da ONU em Nova Iorque. Foto: ONU


Plataforma será o ponto de acesso global à informação das Nações Unidas, incluindo material histórico e registros contemporâneos. Biblioteca foi desenvolvida por meio de tecnologia de código aberto pela Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN).
A ONU lançou no mês de maio um repositório que conta atualmente com cerca de 900 mil registros. Segundo a organização, a plataforma será o ponto de acesso global à informação das Nações Unidas, incluindo material histórico e registros contemporâneos.
A iniciativa é uma parceria entre a Biblioteca Dag Hammarskjöld das Nações Unidas e a Biblioteca do Escritório das Nações Unidas em Genebra. A plataforma fornece acesso a materiais produzidos pela organização em formato digital e sem custo algum, e faz parte de um esforço de promover a transparência, o livre acesso à informação e a preservação do acervo documental da ONU.
A biblioteca foi desenvolvida por meio de tecnologia de código aberto pela Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) e engloba métricas de administração e de código aberto.
O sistema incorpora conteúdo apresentado em diversos bancos de dados autônomos, como o Sistema de Informação Bibliográfica da ONU (UNBISNET) e o Sistema de Documentos Oficiais das Nações Unidas. No total, são quase 900 mil registros, número que aumenta diariamente.
Entre os documentos disponíveis estão documentos oficiais da ONU e publicações de acesso público, discursos e dados de votações nos diferentes órgãos da organização, mapas, resoluções, atas de reuniões e uma diversa coleção de documentos institucionais.
A plataforma está disponível nos seis idiomas oficiais da organização, além de alguns outros não oficiais, em certos casos.
Para utilizar a Biblioteca Digital da ONU, os usuários devem acessar a página e fazer a busca utilizando os diferentes filtros, como tipo de documento ou órgão, agência ou organismo do Sistema ONU. O conteúdo também está disponível para download.
Acesse o repositório em https://digitallibrary.un.org.
Por ONUBR

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Como o teste de QI foi criado? Ele ainda faz sentido hoje em dia?

A evolução dos testes reflete como a noção de inteligência mudou ao longo dos tempos. Confira argumentos a favor e contra o uso do QI

A criação do mais famoso teste para medir o potencial de inteligência de um ser humano foi um longo processo, que se iniciou no começo do século 20. Confira os principais momentos a seguir e, logo abaixo, a polêmica atual: o teste de QI ainda faz sentido? Ouvimos os especialistas para listar quatro argumentos a favor e quatro contra.
 
(Imagens de Bruno Miranda/Mundo Estranho)
1905-1911: A LARGADA
O psicólogo francês Alfred Binet, em parceria com o colega Théodore Simon, é um dos pioneiros na aferição técnica da inteligência. Seu teste para avaliar crianças com atraso mental, a partir da medição de habilidades como compreensão, razão e julgamento, serviu de base para o teste de inteligência mais comum hoje em dia, o Stanford-Binet.

 
1916: O MAIS POPULARO psicólogo Lewis Terman, da Universidade Stanford (EUA), adaptou o teste francês, rebatizado como Stanford-Binet. Avaliando aritmética, memorização e vocabulário, o exame foi o primeiro a classificar as pessoas por um QI (quociente de inteligência), agrupando-as em diferentes patamares de capacidade.
1927: PONTO G
O inglês Charles Spearman propõe o fator de inteligência geral (“g”), uma variável que relaciona as diferentes habilidades cognitivas de um indivíduo. Segundo ele, o “g” explicaria até 50% da inteligência nas medições, mas críticos acreditam que Spearman desvaloriza outras aptidões importantes.

 
1949-1955: PARA TODAS AS IDADES
O norte-americano David Wechsler, que havia rejeitado o conceito de “idade mental”, publica suas escalas de inteligência para crianças e adultos, com avaliações verbais de desempenho em áreas como compreensão verbal e espacial, memória e velocidade de processamento.

 
1983: ADAPTÁVEL… OU VAGO DEMAIS?Kaufman Battery for Children contém 20 subtestes que avaliam processamento sequencial e simultâneo, planejamento, aprendizado e conhecimento. Como é baseado em dois modelos teóricos, sua interpretação varia de acordo com a cultura e as habilidades verbais do examinado.
1983: UMA É POUCO
No livro Frames of Mind, o psicólogo norte-americano Howard Gardner oferece pela primeira vez a Teoria das Inteligências Múltiplas, segundo a qual temos o potencial para desenvolver combinações de oito inteligências distintas. A ideia ganha popularidade ao longo das décadas seguintes.

 
2011: FLUTUANTE
Estudos da University College London e do Centre for Educational Neuroscience, na Inglaterra, envolvendo ressonância magnética do cérebro de jovens, mostraram que o QI pode aumentar ou diminuir na adolescência.A descoberta derruba a percepção de que a habilidade intelectual é um limite fixo e imutável.

 Por Julia Moióli/Mundo Estranho

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Professor da Escola de Medicina defende os livros como remédio para a ansiedade e diversos males

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No Laboratório de Leitura montado na Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São Paulo que Dante Gallian pôde perceber como a literatura impactava os leitores de forma afetiva e reflexiva, influenciando diretamente em suas vidas. “Como estávamos num ambiente acadêmico, começamos a abordar essa experiência como um objeto de estudo. Fomos constituindo uma linha de pesquisa que hoje congrega dezenas de pesquisadores e que apresenta uma grande produção científica com alta qualidade. Hoje, temos pesquisado os efeitos da aplicação do Laboratório não só no campo da saúde – na formação ética e na humanização dos futuros profissionais; como meio recuperação de pacientes psicóticos… –, mas também no âmbito das grandes corporações e setores específicos da sociedade, como grupos da terceira idade”, conta.
Dante é formado em História pela USP, onde fez seu mestrado e doutorado. Seu pós-doutorado veio pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, de Paris, e desde 1999 é professor e diretor do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da EPM. Grande entusiasta da leitura – acredita que ler é um ato revolucionário -, teve sua vida impactada por clássicos como “A Odisseia”, de Homero; “A Divina Comédia”, de Dante; “Dom Quixote”, de Cervantes; “Hamlet”, de Shakespeare; “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.
Por ter aprimorado sua experiência de “ser e estar no mundo” graças aos livros que enveredou suas pesquisas para essa área. Os estudos resultaram em “A Literatura Como Remédio – Os Clássicos e a Saúde da Alma”, obra lançada há pouco pela Martin Claret, na qual fala sobre os resultados alcançados no Laboratório de Leitura. “Ali, a leitura compartilhada tem se apresentado como um elemento coadjuvante de grande poder em pacientes psicóticos ou como meio de combate à depressão em pacientes da terceira idade. Sendo um remédio que afeta primordialmente a alma, a psique, a literatura ajuda a reverter e mesmo a curar enfermidades de origem psíquica e emocional, que são as mais prevalentes no mundo atual”, diz na entrevista abaixo.
Dentre os problemas que um bom livro pode combater, Dante aponta principalmente para um que define como “predominante e crônico em nossos dias”: a ansiedade, algo diretamente relacionado à constante pressa a qual quase todos parecem estar submetidos. “Vivemos um tempo em que tendemos a privilegiar tudo o que é imediato e circunstancial e a desprezar tudo o que é permanente e essencial. Vemo-nos, cada vez mais, transformados em máquinas de produção e consumo e isso nos desumaniza e nos faz doentes. Estamos sempre extremamente ocupados, mergulhados numa dinâmica operacional de resolução de problemas e realização de tarefas, esquecendo de amar, de olhar, de contemplar o mundo, a vida, as pessoas que nos cercam”.
Quais são as principais doenças e males contemporâneos que a literatura pode ajudar a combater? Como?
Minha experiência pessoal e de pesquisa aponta que a literatura pode ajudar a combater inúmeros males, porém creio que o principal é justamente aquele que se apresenta como predominante e crônico em nossos dias: a ansiedade. Ao nos “sequestrar”, através de uma narrativa envolvente e uma trama interessante, a literatura tem o poder de nos lançar numa outra espacialidade e temporalidade.
Enquanto estamos lendo, nos esquecemos, por um tempo, dos nossos problemas, das premências que muitas vezes nos oprimem. Esta “fuga” da realidade apresenta-se como algo desestressante e terapêutico, porque libertador. Ao fecharmos o livro, percebemos que os nossos problemas e premências continuam lá, porém nós não somos mais os mesmos. A leitura não apenas nos levou a uma outra dimensão de espaço e tempo, mas também contribuiu para olharmos a nossa realidade a partir de uma outra perspectiva.
A experiência da leitura, ainda mais quando dinamizada e potencializada pela dinâmica do Laboratório de Leitura, pode nos ensinar a olhar e interpretar a vida de uma forma nova, mais ampla, profunda, ajudando a relativizar certas visões e pontos de vista por demais obtusos e pessimistas. Assim, ao mesmo tempo em que nos permite “escapar” por um tempo das situações que são fonte de ansiedade, a literatura nos permite voltar a estas mesmas situações mais ricos e fortalecidos, prontos para enfrentá-las com um novo espírito e um novo olhar.
A literatura pode, de alguma forma, ajudar diretamente na cura ou tratamento de doenças extremas, como o câncer ou o Alzheimer?
Apesar de não me dedicar a pesquisas assim tão direcionadas, é possível dizer que muitos pesquisadores têm demonstrado, por exemplo, quanto a leitura de obras clássicas da literatura podem interferir na dinamização de ligações e processos neurais importantes, impactando positivamente em tratamentos de doenças degenerativas como o Alzheimer. Mais concretamente, posso afirmar que não apenas a leitura, mas a leitura compartilhada no âmbito do Laboratório de Leitura, tem se apresentado como um elemento coadjuvante de grande poder em pacientes psicóticos ou como meio de combate à depressão em pacientes da terceira idade. Sendo um remédio que afeta primordialmente a alma, a psique, a literatura ajuda a reverter e mesmo a curar enfermidades de origem psíquica e emocional, que são as mais prevalentes no mundo atual.
Quais livros e autores você destaca pelo poder de cura que possuem?
Creio que praticamente todos os grandes clássicos e os grandes autores têm um poder terapêutico incomensurável, desde que bem trabalhados e administrados. Baseando-me, entretanto, em algumas experiências, destacaria, por exemplo, Miguel de Cervantes, que através do seu Dom Quixote nos ajuda a relativizar a rígida polarização que a Modernidade criou entre “realidade” e “ficção”; Shakespeare, que através de suas tragédias nos possibilita fazer um mergulho no mais profundo das nossas motivações e paixões; e Dostoiévski, que através de personagens como o Príncipe Mitchikin, do romance “O Idiota”, ou dos filhos de Fiodor Karamázov, de “Irmãos Karamázov”, nos permite encontrar a esperança na experiência mais profunda do desespero.
A experiência do Laboratório de Leitura tem me ajudado a elaborar uma verdadeira farmacopeia literária, que pretendo explorar cada vez mais, tanto no mundo acadêmico quanto no mundo corporativo e também na sociedade como um todo. Todos estamos muito necessitados desse remédio.
Você escreve no livro que ler é um ato revolucionário. Por quê?
Parafraseando Blaise Pascal [filósofo francês], a leitura é uma diversio conversio; ou seja, algo que nos possibilita sair de nós mesmos – o que é próprio da diversão – e, ao mesmo tempo, algo que, quase sem percebermos, nos lança dentro de nós mesmo – o que é próprio da conversão, no sentido filosófico e psicológico do termo. A literatura converte divertindo e este é um autêntico movimento revolucionário, na medida em que gera uma circularidade existencial extremamente propulsiva, transformadora. Percebemos em nossas pesquisas que a dinâmica do Laboratório de Leitura potencializa essa virtude revolucionária que literatura tem per si.
Ao longo de “A Literatura Como Remédio” você joga com a questão do “leitor extremamente ocupado”. Hoje, muitas pessoas dizem não ler porque estão, justamente, extremamente ocupadas. Qual o remédio que você recomenda para esses que não têm tempo para nada?
Em meu livro cito um autor francês, Daniel Pennac, que num ensaio genial intitulado “Como um Romance” afirma que “o tempo para ler é como o tempo para amar: é sempre um tempo roubado”. Vivemos um tempo em que tendemos a privilegiar tudo o que é imediato e circunstancial e a desprezar tudo o que é permanente e essencial. Vemo-nos, cada vez mais, transformados em máquinas de produção e consumo e isso nos desumaniza e nos faz doentes. Estamos sempre extremamente ocupados, mergulhados numa dinâmica operacional de resolução de problemas e realização de tarefas, esquecendo de amar, de olhar, de contemplar o mundo, a vida, as pessoas que nos cercam. A leitura de um bom livro pode ser uma fuga, um antídoto frente a esta dinâmica desumana e patológica em que vivemos.
O remédio é realmente “roubar”; roubar tempo que talvez dediquemos de forma exagerada às redes sociais, à televisão e a outras atividades que ocupam nosso tempo de ócio com sempre mais do mesmo. Ao nos darmos a oportunidade de fazer a experiência da leitura dos clássicos encontraremos algo tão bom e tão libertador que, em breve, descobriremos tempo e meios inéditos de nos dedicarmos a esta atividade “subversiva”, tal como os amantes que inventam mil jeitos e oportunidades para estarem juntos. Desde que eu me apaixonei pela literatura encontrei meios novos e criativos para me dedicar à leitura; todos os dias. Leio nos intervalos “mortos”, na fila do banco e até enquanto caminho para o trabalho…
Dica da Sonia Junqueira
Por Rodrigo Casarin, no Página Cinco/Livros e Pessoas


sexta-feira, 21 de julho de 2017

A montanha-russa dos idiomas

A diferença entre estrangeirismos e empréstimos linguísticos revela a qualidade das relações com outros povos
estrangeirismos
Foto: Pixabay

Há duas forças na língua que, segundo Saussure, se opõem simultaneamente: o espírito de campanário (esprit de clocher) e o espírito de intercurso. O primeiro visa a assegurar a estabilidade da língua diante de influências estrangeiras; o segundo opera de forma a permitir a entrada na língua de empréstimos e estrangeirismos.
O empréstimo é uma forma ou expressão linguística que uma língua aceita e adota de outra. O que distingue o empréstimo do estrangeirismo é que este ainda não se integrou à língua, enquanto aquele já é do domínio de seus usuários. Assim, palavras como “habitat” (latim), “menu” (francês), “flashback” (inglês) e “blitz” (alemão) são estrangeirismos. Mas termos como “balé” (fr. ballet), “chofer” (fr. chauffeur), “futebol” (ing. foot-ball), “chutar” (ing. shoot) são empréstimos, porque já estão incorporados à língua, com roupagem vernácula integral.
O empréstimo po­de ser externo, quando proveniente de outra língua (como “mantilha”, de origem castelhana), ou interno, quando proveniente de um dialeto, de um registro ou de um falar típico dentro da mesma língua (como “mixar” ou “mixaria”, da gíria dos ladrões; ou “boia”, comida na gíria militar).
Nem sempre o estrangeirismo adotado numa língua tem o mesmo sentido na língua de origem. Assim, a expressão “outdoor”, usada por falantes do português para designar o quadro em que se fazem anúncios em via pública, não tem esse sentido em inglês, em que outdoor significa “ao ar livre”. O que nós denominamos “out-door” chama-se em inglês billboard.
O francês rendez-vous significa “encontro”, sem a conotação pejorativa de seu uso em português.
A expressão bi Gott (“por Deus”) do médio alto-alemão, usada como invocação para reforçar uma afirmativa, no século 15, entrou na língua francesa como “bigot”, com o sentido de “carola”, pessoa muito devota.

O termo alemão Blitz, que como “blitz” usamos para designar uma batida policial feita de surpresa, se origina da expressão Blitzkrieg (guerra- -relâmpago), que designava os ataques rápidos e inesperados dos alemães na II Guerra, mas, na língua de origem, Blitz significa relâmpago, e não batida policial.
Decalque 
O empréstimo, muitas vezes, faz “turismo”: passa de uma língua A para uma língua B e volta à língua A com modificações. O português “feitiço” deu origem ao francês fetiche, que voltou ao português com outro sentido. O substantivo boeuf, que em francês significa “boi”, foi emprestado ao inglês, que o adotou como beef na palavra beefsteak (fatia de boi), que voltou ao francês como bifteck (em português, “bife”).

Um tipo especial de empréstimo é o decalque, termo com que se designa a tradução literal, na língua A, de uma palavra ou expressão de uma língua B, às vezes com a subversão do significado tradicional na língua A dos elementos que constituem a tradução. Por exemplo, “cachorro-quente” é decalque do inglês hot dog; “salvar”, com o sentido de “guardar num arquivo do computador”, é decalque do inglês save; “realizar”, com o sentido de “entender, perceber”, é decalque do inglês realize.
A utilização de “gênero” como sinônimo de “sexo” é decalque do inglês gender, numa confusão condenável, porque “gênero” nunca existiu em português como sinônimo de sexo (sexo é distinção semântica, e gênero é distinção gramatical, isto é, uma palavra sempre do gênero feminino, como “criança”, por exemplo, pode designar pessoa do sexo masculino; e vice-versa: uma palavra do gênero masculino, como “mulherão”, designa pessoa do sexo feminino).
Equívoco
A expressão “luta de classes”, que designa, no marxismo, o conflito entre classes sociais ou entre o proletariado e a burguesia, é um decalque do alemão Klassenkampf. Outros decalques: “quebra-luz” (do fr. abat-jour), “arranha-céu” (do ing. sky-scraper), “balípodo” ou “ludopédio” (neologismos de Castro Lopes para substituir o ing. foot-ball), “autoestrada” (do fr. auto-route) etc.

Às vezes o decalque nasce de uma tradução inadequada. Na expressão Rutschbahn ou Rutschberg, que significa montanha (Berg) de escorregamento (Rutsch), uma atração alemã em parque de diversões, o nome Rutsch foi indevidamente traduzido para o francês como se fosse o adjetivo russe, e a atração ficou conhecida como montagne russe (montanha-russa).
Futebol
Um estrangeirismo de uso no Brasil, apenas parcialmente adaptado ao vernáculo, é a palavra “gol”. Alguns gramáticos e o dicionário Houaiss, equivocadamente, postularam a existência de um plural “gois”, apenas virtual e hipotético. Na verdade, “gol” é apenas a adaptação gráfica do inglês goal, já que todas as palavras oxítonas terminadas em -ol, em português, têm a vogal tônica aberta (lençol, terçol, futebol, etc.); se “gol” mantém a vogal fechada é porque não é palavra portuguesa, e o plural “gols” é legitimado.

Neologismo é uma palavra inventada (ou com sentido novo). Os campeões de neologismos no Brasil são Castro Lopes e Oduvaldo Cozzi. Poucos neologismos de Lopes conseguiram alguma aceitação, como “protofonia” (ouverture) ou “convescote” (piquenique). A maioria foi rejeitada: cinesíforo (chofer), festimana (matinée), demostasia / operinsurreição (greve), ludâmbulo (turista), lucivelo (abajur), etc. Mas, no futebol, Cozzi foi mais feliz com seus neologismos: escanteio (corner), zagueiro (back), impedimento (off side), falta (foul), penalidade máxima (penalty). Pena que “tento” (goal) e “arqueiro” (goalkeeper) tenham tido pouca aceitação.