sábado, 18 de fevereiro de 2017

Livro aproxima Machado de Assis e Shakespeare

Shakespeare
Retrato de William Shakespeare pintado em 1610 /Foto: Folger Library/The New York Times

O primeiro contato de Machado de Assis com a obra de William Shakespeare é difícil de precisar. Pode ter sido durante suas visitas ao acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro; ou, quem sabe, assistindo a uma das peças encenadas pelo lendário ator João Caetano; ou ainda, lendo uma versão francesa pouco fiel aos escritos do bardo inglês. O fato é que, aos 20 anos, em 1859, Machado de Assis já se ocupava do trabalho shakespeariano em críticas teatrais publicadas no periódico O Espelho. “Não se comenta Shakespeare, admira-se”, vaticinou o escritor em um dos seus primeiros artigos.
A aproximação de Machado com a obra de Shakespeare inicia-se durante seu trabalho de crítico teatral e se esparrama por toda a sua produção – até o seu último livro, Memorial de Aires. Shakespeare é mencionado por Machado em cerca de 50 contos, 10 poemas, 3 peças de teatro e 100 textos (incluindo crônicas, críticas literárias e escritos diversos). No livro Machado & Shakespeare: Intertextualidades(Ed. Perspectiva), a doutora em Teoria da Literatura Adriana da Costa Teles lista 273 referências ao dramaturgo na obra machadiana, em que é possível destacar três clássicos: Otelo (nos romances), Hamlet(em textos críticos e jornalísticos) e Romeu e Julieta(nos contos).
Curioso observar que o diálogo de Machado com a obra de Shakespeare nem sempre se dá de forma direta ou reverencial. Machado se utiliza dos estereótipos shakespearianos para construir e delimitar o caráter dos próprios personagens, traçando-os com ironia, humor e até mesmo como se fossem um espelho invertido das criações do inglês. Um bom exemplo dessa relação pode ser apreciada, segundo o trabalho de Adriana, se olharmos para as conexões entre Bentinho (Dom Casmurro) e Otelo – conexões essas que vão além do sentimento de ciúme que move os dois personagens. “Bentinho e Otelo se aproximam enquanto sujeitos que se desconhecem e que possuem uma autoimagem construída por situações e pessoas externas a eles”, escreve a autora.
Foto: Sara Krulwich/The New York Times
Otelo
O ator Philip Seymour Hoffman, morto em 2014, interpretou Iago na montagem de 'Otelo' de 2009
Otelo fala de si como se falasse de um herói, se vê de longe. Sua fraqueza é, justamente, essa falsa imagem ou ainda como explicitou o critico literário Harold Bloom: “A tragédia de Otelo é precisamente o fato de Iago conhecê-lo melhor do que ele próprio se conhece”. Embora não compartilhe de nenhuma dimensão heroica, Bentinho também não conhece a si próprio – e também tem o seu destino traçado a partir do que os outros dizem ou pensam dele.
Outro ponto de convergência/divergência entre Bentinho e Otelo, levantado pelo livro, envolve Capitu e Desdêmona. A personagem shakespeariana apaixona-se por Otelo devido às histórias que ele contava. O pastiche da mesma técnica de conquista aparece na relação de Bentinho com Capitu. Mas, diferente de Otelo, Bentinho não tem atos heroicos para narrar e contenta-se em discorrer sobre astronomia. Ao contrário de Desdêmona, Capitu sente-se apenas entediada com as “lições” de Bentinho.
Como observa Adriana em seu estudo, “o aproveitamento que Machado faz de Otelo assim como de toda sua carga trágica em Dom Casmurro é marcadamente irônico e a intertextualidade se afirma pela negação, pela subversão do trágico”.Romeu e Julieta, por exemplo, também é uma obra subvertida por Machado. Em vários contos em que Machado dialoga com Romeu e Julieta é clara a tentativa de usar o drama do jovem casal para desconstruir a ideia de um amor romântico, puro e transcendental.
No conto Francisca (1867), Machado faz referências diretas ao texto shakespeariano. Logo de início, o personagem Daniel despede-se da amada para aventurar-se em busca de fortuna. “Daniel despediu-se de Francisca e da musa. Houve, para ambas as entrevistas de despedida, a escada de seda e a calhandra de Romeu. A ambas deu ao moço lágrimas de verdadeira dor”.
Como se percebe, Machado pinta Daniel e sobre Francisca com as tintas da tragédia que se abateu Romeu e Julieta. Estão presentes na narrativa de Machado todos os elementos que fizeram dos amantes de Verona aquilo que eles são. Encontramos no inicio do conto “a forte paixão”, “as circunstâncias que inviabilizam o amor” e a “separação inevitável”. Mas no espelho invertido de Machado, o casal formado por Daniel e Francisca arruma um jeito de acomodar a situação. Eis o trecho em que a imaturidade do casal shakespeariano é suplantada pela maturidade ou pelo cinismo machadiano: “Ambos compreendiam que, por mais dolorosa que lhes parecesse a situação em que os colocara o cálculo e o erro, era-lhes dever de honra curvar a cabeça e procurar na resignação passiva a consolação da mágoa e do martírio”.
Hamlet é outro que recebe uma abordagem irônica. Em um dos contos mais conhecidos de Machado, A Cartomante (1884), uma referência àquela que deve ser a citação mais conhecida do dramaturgo surge logo de saída: “Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia.” De novo, Machado cita Shakespeare para criar, no leitor, uma falsa expectativa, uma ansiedade pelo trágico ou pelo mistério que transcende o céu e a terra. Audacioso, Machado faz uso de Hamlet para afirmar o oposto. Na história de Rita e Camilo, o que se lê é um aviso de que entre o céu e a terra existem os fatos, que estão aí para serem lidos e interpretados. Nada mais machadiano do que isso.
Com o trabalho de Adriana da Costa Teles, os leitores de Machado de Assis são guiados para o mais incrível e eficiente método de apropriação/negação de uma obra. O exercício dialético do bruxo do Cosme Velho em relação aos escritos do bardo inglês oferecem um novo arco de possibilidades e de deleite estético. Como seria se Machado de Assis não tivesse se aprofundado na obra de Shakespeare? Que autor ele seria? Como seriam os seus personagens? Eis a questão que, felizmente, ninguém precisa se ocupar em responder.
Por Gilberto Amendola /O Estado de S. Paulo



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Livros, canetas e lágrimas : o cotidiano escolar de crianças e adolescentesque sofrem bullying e seus reflexos no desempenho escolar

Em diferentes escolas de diferentes lugares, com as mais diversas realidades sociais, existe um drama silencioso que adentra no cotidiano dos alunos envolvidos causando dor, medo e algumas vezes consequências trágicas. Estamos falando do bullying. De acordo com Aramis A. Lopes Neto, Sócio Fundador da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infancia e à Adolescência (ABRAPIA). Coordenador do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes: 
      “Por definição, bullying compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudante contra outro(s), causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder”. (NETO,2005).
            Em seu artigo,  Bullying – comportamento agressivo entre estudantes, ele diz ainda:

A adoção universal do termo bullying foi decorrente da dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence, de maio a junho de 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra bullying dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em países como Alemanha, França, Espanha, Portugal e Brasil, entre outros18”(NETO,2005).

Embora sua existência seja uma realidade indiscutível, no Brasil, o tema só passou a despertar interesse na comunidade científica por volta dos anos 80, e ainda assim, sem muita expressividade. Consequentemente, sem a devida atenção, o problema tem destruído muitas vidas, enquanto tratado com naturalidade. Naturalmente, trata-se de uma discussão consideravelmente complexa, uma vez que põe em pauta a questão  da violência, suas diferentes formas e o despreparo do sistema escolar para lidar com essa situação.
Em algumas situações, crianças e adolescentes vítimas de bullying acabam sucumbindo ao sofrimento mudo que se prolonga, sem que os adultos de referência consigam reverter a situação, na maioria das vezes por não compreender a dimensão de seus reflexos, e acabam tirando a própria vida como forma de se libertar da tortura que parece limitar seus horizontes para uma realidade de humilhação e limitação. Quando determinada situação acontece, existe uma comoção em torno do problema, no entanto, a discussão restringe-se ao caso específico, sem que exista um aprofundamento da questão.
Outras vítimas reagem de modo adverso e acabam protagonizando tragédias, chegando a matar grande número de pessoas  em suas escolas, como forma de provar que não são insignificantes e que podem causar grande comoção. Além de revidar toda a dor que sentiram durante longo período de tempo, sem o respeito de seus agressores e sem o empenho da instituição escolar para reverter o problema; a vítima vinga-se também dessa omissão ao causar dor a diferentes atores da comunidade escolar. Pesquisadores como Watson, Andreas, Fischer e Smith (2005) apresentam os fatores ambientais como significativos no comportamento dos estudantes atiradores, contudo, ressaltam a necessidade de que mais pesquisas procurem decifrar o que poderia motivar adolescentes a atos tão medonhos.
No artigo “De columbine à virgínia tech: reflexões com base empírica sobre um fenômeno em expansão”, Vieira, Mendes e Guimarães apresentam argumentos que levantam a possibilidade de que o bullying teria forte influência no desfecho de tragédias escolares.
Um relatório detalhado apresentado pelo Serviço Secreto dos Estados Unidos em parceria com o Departamento de Educação dos Estados Unidos (United States Secret Service & United States Department of Education, 2004) revisou mais de 30 episódios (entre massacres e tentativas), buscando compreender o fenômeno e desenvolver possíveis propostas de prevenção. O relatório afirma que não há um perfil característico dos estudantes atiradores (nem psicológico nem demográfico), pelo menos não de forma acurada. Chama a atenção, todavia, o fato do relatório não descartar que há variáveis que podem ser identificadas em boa parte dos incidentes desta natureza. Dentre estas, ressaltam-se a dificuldade dos atiradores em lidar com perdas significativas e falhas pessoais, interesse por mídia violenta (filmes, jogos, livros e outros), o fato de terem sido ou estarem sendo vítimas de perseguições e humilhações de colegas, a manifestação de comportamentos anteriores que sinalizavam que eles precisavam de ajuda, dentre outros. (VIEIRA; MENDES; GUIMARÃES,2009).
Tais situações têm razoável repercussão e conseguem espaço na mídia por algum período de tempo. Sem que isso tenha um peso real na continuidade do problema. No entanto, milhares de pequenas vítimas passeiam sob nossos olhares descuidados todos os dias no cotidiano de nossas escolas. Não acreditamos e não esperamos que nossas crianças tirem as próprias vidas ou saiam matando inocentes por aí. De fato, a maioria não o fará, contudo, como está o desempenho de nossos meninos? Será que nossas silenciosas vítimas estão conseguindo vislumbrar um projeto de vida enquanto batalham todos os dias por um pouco de dignidade?
O processo de aprendizagem perpassa por diferentes fatores, estar biologicamente bem, não torna o indivíduo automaticamente apto ao conhecimento. É preciso despertar o desejo pela descoberta, pela aprendizagem. É fundamental que exista uma compreensão de porque estamos buscando esse conhecimento, em que ele nos será útil. A auto estima tem um papel preponderante nesse processo.

É pertinente dizer que perscrutar os reflexos do bullying no desempenho escolar dos alunos envolvidos é fundamental para reverter os prejuízos causados.
Aparecida Cunha

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Blog Aparecida Cunha ultrapassou 50.000 acessos, obrigada!!!

Levando em conta o crescente número de acessos do blog, penso que será interessante comemorar revendo as postagens mais visitadas e apresentando aos novos seguidores um pouco da minha produção. É um prazer enorme dividir com vocês notícias que contribuem para um fazer profissional mais proativo e coerente com a dinâmica da sociedade atual, ou simplesmente para matar o tempo de pessoas que gostam de pensar. Enfim, tem sido uma alegria cotidiana perceber que nem tudo está perdido nesse mundo de meu Deus, ainda existem bons leitores, ainda existe esperança. E vamos que vamos que ainda há muito o que aprender, ainda há muito o que conhecer. Afinal, como bem disse Sócrates: "Eu só sei que nada sei..."   
Aparecida Cunha

Medalha Paulo Freire - MEC



Estão abertas até 15 de março as inscrições para a Medalha Paulo Freire, premiação voltada para a divulgação, reconhecimento e estímulo de experiências educacionais de alfabetização e educação de jovens e adultos. Esta edição tem como tema Direitos Humanos, Diversidade, Inclusão e Cidadania. As inscrições são gratuitas.
De abrangência nacional, a Medalha Paulo Freire, concedida desde 2005, contempla iniciativas de inovação metodológica ou curricular. “A medalha constitui bem mais do que uma simples homenagem ou premiação”, diz a titular da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação, Ivana de Siqueira. “É um reconhecimento e estímulo a práticas exitosas que buscam a equidade e o direito à educação ao longo da vida.”
Podem concorrer à premiação experiências de todo o país que estejam em execução ao longo de 2017. Na categoria pessoas jurídicas, os projetos devem estar vinculados a secretarias de Educação, universidades, movimentos sociais, instituições do Sistema S e organizações não governamentais. A categoria pessoas físicas engloba projetos desenvolvidos por personalidades que contribuam com iniciativas para a redução do analfabetismo e melhoria da educação de jovens e adultos.
As inscrições devem ser feitas na página da Medalha Paulo Freire na internet. A seleção dos premiados está prevista para agosto. A divulgação do resultado, para dezembro.

Assessoria de Comunicação Social - MEC/Rio Educa

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Meditação pode favorecer aprendizagem

© Gabriel Valentim
Há tempos os pesquisadores investigam os efeitos da meditação sobre o corpo e a mente, mas apenas recentemente eles se voltaram para os impactos da prática no processo de ensino e aprendizagem. É um campo recente de investigações, mas, a julgar pelas evidências já geradas, é possível que a meditação se torne uma aliada importante dos educadores.  Estudo conduzido na Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) mostrou que o ato de permanecer focado em silêncio melhora a fluência verbal dos alunos e, portanto, pode favorecer a aprendizagem.
O levantamento foi feito no 2º semestre de 2014 e envolveu 60 crianças do 5º ano do ensino fundamental (média de 10 anos) de uma escola pública do Sul do país. Foi criado um grupo experimental, com 23 participantes, e outro de controle, com 37. No primeiro, foram realizadas práticas de meditação coletiva conduzidas diariamente pelos professores por um período de seis meses. Ao final, todos foram submetidos a tarefas de fluência verbal livre, fonêmico-ortográficas e semânticas e os estudantes do grupo experimental tiveram desempenho superior.
Além dessa pesquisa, outras conduzidas em instituições de referência nos Estados Unidos apontaram que a meditação aplicada a alunos do ensino fundamental e médio ajuda a desenvolver a criatividade e a habilidade de abstração; aprimora a concentração; diminui o estresse e melhora o convívio entre colegas e com familiares.
Aqui no Brasil, a prática meditativa em sala de aula, em qualquer um dos níveis educacionais, ainda é restrita a algumas iniciativas isoladas. Mas, na última década, principalmente nos últimos cinco anos, o aumento de escolas que oferecem a atividade aos seus alunos cresce a despeito da ausência de políticas públicas governamentais para esse fim.
“Em 2014, nosso programa de meditação era oferecido a 13 escolas públicas de Porto Alegre. Neste ano, tudo se transformou completamente. Até junho, fizemos contato com 294 escolas públicas e particulares no país”, conta Anmol Arora, fundadora da ONG Mahatma. Atualmente, de acordo com seu levantamento, o programa de meditação da instituição alcança 27 mil estudantes no Brasil, prioritariamente, e em alguns países da América do Sul e da Europa.
Prática simples
A prática difundida por ela consiste em alguns segundos de relaxamento e concentração na respiração. Depois dessa fase as crianças repetem, mentalmente, cinco frases num intervalo de até 15 minutos (os menores podem fazer essa repetição em voz alta). Pode-se fazer a prática sentando numa cadeira, no chão de forma confortável (não necessariamente em lótus, posição meditativa tradicional), deitado ou em pé. As frases repetidas pelos alunos são: “eu estou em paz”, “minha família e meus amigos estão em paz”, “minha escola está em paz”, “meu bairro está em paz” e “minha cidade está em paz”. “Por essa técnica, as crianças desenvolvem a empatia, diminuem a impulsividade, ficam mais concentradas e fortalecem o sentido de responsabilidade”, comenta.
Anmol é exemplo de adulto que começou a meditar ainda criança, por volta dos 10 anos de idade. “Morávamos em Nova Délhi. Minha mãe me levava para meditar muito cedo; saíamos antes de o sol nascer. Pegávamos um trem lotado e íamos. Tinha muito sono. Não gostava nada daquilo tudo.” Com o tempo, deixou a prática de lado e só retomou mais de 20 anos depois, ao passar por algumas dificuldades pessoais. “Após um quadro de depressão, retomei a meditação. A partir daí, melhorei e mudei minha vida.” Entre essas mudanças, diminuiu sua prática clínica como psicóloga e partiu para a realização de trabalhos por meio de ONGs.
A fundadora credita ao pai, o professor Harbans Lal Arora, a utilização de mentalizações de cultura da paz como base da técnica que utiliza. Ph.D. em física quântica pela Universidade de Waterloo, do Canadá, Arora se aposentou como professor titular da Universidade Federal do Ceará e hoje desenvolve trabalhos ligados às mais diversas áreas e assuntos, incluindo educação, desenvolvimento humano, ciência, espiritualidade e física quântica. “Por princípios da física quântica, tudo tem uma reverberação. O cérebro não é diferente. Mentalizando o positivo é possível ‘construir’ um cérebro com pensamentos mais positivos, que gerem atitudes mais positivas.”
Redução do estresse
Foi exatamente pensando na redução do estresse que a professora de educação física Rosângela Martins dos Santos introduziu em suas aulas, na Escola Desdobrada Municipal Lupércio Belarmino da Silva, no interior de Santa Catarina, a prática de meditação para alunos de 6 a 9 anos. “O objetivo foi reduzir a agitação deles e o estresse”, conta.
Seus alunos sentam-se em roda em todo início de aula e repetem, por cinco minutos: “eu estou em paz”. A isso são intercaladas profundas respirações. “Percebi, com o passar do tempo, o aumento da amorosidade entre eles. Eles começaram a pedir mais desculpas, a pedir por licença. Minha relação com eles, inclusive, melhorou”, relata.
Para Rosângela, é muito fácil para as crianças começar a meditar. Elas são menos resistentes quando comparadas aos adultos. “Tudo é um processo lúdico. Há muita brincadeira envolvida nesse aprendizado. Então, não há barreiras. As crianças são naturalmente curiosas, querem aprender.” O principal entrave ainda reside nos pais que, por desconhecimento, confundem o ato de meditar com algo religioso. “Mas, cada vez mais, essa resistência é reduzida. Alguns, incentivados pelos filhos, inclusive passaram a meditar em casa.”
Memória e atenção
Assim como diversos praticantes antigos, Rosângela, que medita há mais de 20 anos, enumera diversos benefícios da prática, entre eles, o aprimoramento da memória, o aumento da atenção, a melhora na capacidade de compreensão dos conteúdos em sala de aula. Tendo vencido ao longo das últimas duas décadas uma série de dificuldades relacionadas à aceitação da técnica nas escolas, a professora hoje acredita ser possível inserir a meditação nas salas de aula em grande escala. “Quem sabe, em breve, possamos refletir  sobre sua inserção numa política educacional mais abrangente.”
Não bastasse a meditação, a ioga é outra técnica utilizada pela educadora. Para isso, ela emprega o método Ioga na Educação, criado pela professora francesa Michelina Flak e pelo professor e filósofo suíço Jacques de Coulon. Como objetivo, o método prevê a maior integração da criança na escola. Ele é realizado por meio de sequências de exercícios físicos, respiratórios e mentais. “O exercício cria atmosfera acolhedora. As crianças se divertem e desenvolvem força, coordenação, flexibilidade, equilíbrio, concentração, foco e autoconfiança.”
A meditação
É incerto quando e em que momento surgiu a meditação, mas é no Oriente que se concentra hoje a maioria dos adeptos. Quase todas as religiões orientais têm também alguma prática em seus ritos, daí a associação com a religião. De forma resumida, meditar é uma maneira de se autoconhecer, de silenciar os pensamentos para se conectar com o momento presente, sem julgamentos. Em outras palavras, permanecer no aqui e agora. Por isso, a meditação tornou-se para diversas linhas psicoterápicas um recurso de trabalho.
Já o ato em si de meditar consiste em focar a atenção em alguma coisa, como a respiração, as sensações corporais ou algum estímulo externo, como uma luz ou uma música. Os olhos podem estar abertos ou fechados. É possível fazer a prática coletiva ou individualmente, sentado, em pé ou andando.
Em entrevista publicada em março pelo jornal norte-americano Washington Post, a neurocientista Sara Lazar, do Massachusetts
General Hospital e da Harvard Medical School, assevera, a partir de estudos científicos, que a meditação pode, de fato, gerar alterações cerebrais significativas.
Entre outras constatações, Sara, uma das primeiras cientistas nos Estados Unidos a analisar os efeitos da meditação no cérebro, afirmou que seus praticantes apresentam maior quantidade de matéria cinzenta em áreas do cérebro relacionadas ao córtex auditivo e sensorial. Há, ainda, mais matéria cinzenta no córtex frontal, local associado à memória de trabalho e à tomada de decisões executivas.
Outras diferenças foram notadas nas regiões ligadas à aprendizagem, cognição, memória e regulação emocional, empatia e compaixão, além de uma diminuição da área ligada à ansiedade, medo e estresse em geral. A ciência ocidental aos poucos confirma os benefícios apontados há milênios pelo Oriente. Levar essa condição ao ensino no Brasil ainda está longe de ser unanimidade. Mas o caminho já começou a ser percorrido por alguns.
Por 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Livro de ninar vai contar 100 histórias de mulheres incríveis








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A editoria V&R lançou neste mês de fevereiro a obra que pode ser adquirida na Livraria Saraiva e Livraria da Travessa
Mariana Areias, no Metropoles
Ouvir boas histórias antes de dormir é agradável. Mas e se as histórias de ninar forem sobre a vida de 100 mulheres incríveis? Seguindo a onda do empoderamento feminino, o livro “Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes” foi lançado em fevereiro deste ano no Brasil, pela V&R editoras.
O livro é traduzido do inglês e o original chama-se “Good Night Stories for Rebel Girls”. Nos Estados Unidos, a obra começou com uma campanha de financiamento coletivo fundada pelas autoras Elena Favilli e Francesca Cavallo. Além de contar a história de mulheres incríveis, o livro também é ilustrado por mulheres do mundo todo.
Algumas das protagonistas são Frida Kahlo, Cleópatra e Simone Biles. A história da estilista francesa Coco Chanel e da artista norte-americana Nina Simone também serão responsáveis por embalar o sono das garotas brasileiras e desenvolver a ideia da importância de um mundo mais igualitário.

Por Mariana Areias, no Metropoles/Livros e Pessoas
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A imprensa e as redes sociais na guerra contra o lixo

São mais de 7 bilhões de pessoas ao redor do mundo gerando lixo diariamente e as previsões são de que até 2025 a tonelagem seja o dobro das atuais. Segundo o Banco Mundial (2012), em 2025 serão 4,3 bilhões de habitantes urbanos (contra 2,9 bilhões em 2002), produzindo 1,42 quilo de lixo por dia, num total de 2,2 bilhões t/ano. Além do planeta dar sinais de esgotamento por acumular tantos resíduos, mostra que o modelo de exploração dos recursos naturais está fadado ao fracasso.
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Lixo urbano na Indonésia. Foto: Wikimedia / CC
As consequências das mudanças climáticas, nos âmbitos ambiental (degelo da Antártida, desaparecimento de espécies vegetais e animais etc.) e saúde pública (retorno de doenças antes erradicadas e a proliferação de vetores que disseminam outras patologias, como o aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika vírus), e mais recentemente o temor de uma epidemia de febre amarela no país, são demonstrativos dessa falência.
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (2013), o Brasil desperdiça, a cada ano, cerca de R$ 10 bilhões por falta de destinação adequada de resíduos. Dados da Abrelpe (2014) mostram que 58,4% dos resíduos coletados no país tiveram destinação adequada (aterro sanitário), mas “mesmo com uma legislação mais restritiva […], 3.334 municípios, correspondentes a 59,8% do total, ainda fazem uso de locais impróprios para destinação final dos resíduos coletados”.
Diante desse cenário, é importante refletir de que forma os meios de comunicação – analógicos e digitais – podem contribuir de forma assertiva para a disseminação de informações de qualidade e a ampliação do debate sobre o tema na sociedade. Notadamente, percebemos que a grande imprensa rotineiramente abre espaço para temas como aquecimento global, degelo do Ártico, aumento das temperaturas, mas raramente para uma análise local dos problemas, por exemplo, trazendo a questão para o Brasil. Geralmente o tema “resíduos” ganha destaque na mídia nacional quando os garis paralisam os serviços de coleta ou ocorre algum problema em um aterro sanitário.
A greve dos garis no Rio de Janeiro durante o carnaval de 2014 foi uma excelente oportunidade para a sociedade brasileira se debruçar sobre o debate dos resíduos sólidos frente à nova legislação e o desenfreado descarte de resíduos. O que se viu durante sete dias foram montanhas de plásticos, garrafas de água, latas, caixas de papelão e, claro, lixo comum transbordando por toda a capital fluminense. Não teria sido esse um ótimo momento para uma mobilização emergencial de educação ambiental com os cariocas? Com os turistas foliões?
Numa análise superficial do noticiário dos dois jornais de maior circulação no Brasil – O Globo e Folha de S.Paulo –, ambos se limitaram a retratar os fatos, claro, dando ênfase à gravidade da situação, às doenças correlacionadas, como leptospirose e diarreias, mas não avançaram no debate chamado a sociedade para a corresponsabilidade, nem situando a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) nesse contexto.
O envolvimento da sociedade
O Globo publicou uma nota de opinião, levantando a hipótese de oportunismo político do movimento, em pleno carnaval, com a cidade repleta de gente e com 3 mil toneladas de lixo pela cidade todos os dias, sem desmerecer que os garis podiam ganhar mais. No bate-pé entre Prefeitura do Rio e garis, os trabalhadores dos resíduos venceram: pediram R$ 1.200 e levaram R$ 1.100, um aumento real de 37%, em cima do salário de R$ 803.
Um dos preceitos da política nacional é reduzir a geração de resíduos, e para isso é necessário que as pessoas acessem o mínimo de informação para se mobilizar, como atestam Braga e Mafra (2000): “Além disso, precisam compartilhar visões, emoções e conhecimentos sobre a realidade das coisas à sua volta, gerando a reflexão e o debate para a mudança.”
Pensar em políticas públicas e de mobilização da sociedade para reduzir a geração de resíduos e fazer seu descarte de forma correta é essencial. Com esse intuito, foi desenhada, depois de 20 anos tramitando no Congresso, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), legislação que prevê uma série de exigências a todos os 5.570 municípios brasileiros. Entre elas, e uma das mais significativas, é a construção do plano municipal de gestão dos resíduos sólidos, que cada cidade deve ter. Nesses planos devem constar, entre vários itens, a implantação da coleta seletiva com a participação de cooperativas ou outras formas de associação de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis; e a adoção de programas e ações de educação ambiental que promovam a não geração, a redução, a reutilização e a reciclagem de resíduos sólidos .(PNRS, 2012)
Uma das questões colocadas pela nova legislação é a responsabilidade compartilhada, que prevê o envolvimento de toda a sociedade, incluindo população, indústria, comerciantes, importadores, distribuidores, consumidores finais e serviços públicos de limpeza urbana com a questão, considerada um princípio norteador da PNRS, por Costa e Crespo (2012): “É uma mensagem para que todos os atores façam sua parte.”
Comunicação para o desenvolvimento humano
Mais do que envolver a população, é fundamental que a questão seja tomada com política de governo, como bem descreve Acselrad (2000): “A participação democrática e a socialização da política seriam condições do desenvolvimento, que contaria com a participação da sociedade nos fóruns de discussão sobre as decisões de interesse público.”
Na visão de Acselrad, um caminho viável do desenvolvimento é repensar as articulações entre dimensões econômicas, sociais e político-institucionais. Um dos modelos seria movido pelos processos temporais de inovação, velocidade de circulação da informação e o uso do conhecimento tecnológico. O outro teria foco na cidadania como condição do desenvolvimento.
Se o envolvimento da população se mostra como essencial para o sucesso de um processo de mudança – nesse caso, o da redução de geração de resíduos e adoção na prática diária de medidas ambientais, separação de materiais e destinação para a coleta seletiva –, a comunicação para o desenvolvimento humano e social, bem como para a promoção da autonomia dos sujeitos, se apresenta como item fundamental de mobilização social, à medida que, segundo Marteleto e Silva (2004), o acesso à informação é um elemento-chave para o desenvolvimento econômico e social de comunidades e grupos sociais.
A capacidade de obter informações, além dos contornos restritos da própria comunidade, é parte do capital relacional dos indivíduos e grupos. As transformações dependem das redes existentes entre os indivíduos do grupo e atores localizados em outros espaços sociais, ou seja, do capital social da comunidade [na relação com o Estado].”
Uma iniciativa interessante de mobilização adotada pela Prefeitura de Belo Horizonte, em 2011, foi a colocação de um lixômetro na Praça Sete, Centro da capital, com os resíduos que são recolhidos diariamente no local, atirados ao chão pelos pedestres.
Lixômetro Lixo Reciclagem
Sensibilização social: lixômetro colocado na Praça Sete . Foto: Divino Advíncula/Portal PBH

Comunhão e compartilhamento
Nesse cenário, pode-se afirmar que o acesso à informação se revela como uma das formas de tornar os sujeitos mais conscientes sobre seu papel nesse contexto dos resíduos sólidos. Para Henriques et.al (2007), a mobilização social vai ao encontro de “um projeto que permita o desencadeamento de ações concretas de cooperação e colaboração. Onde os cidadãos se sintam efetivamente envolvidos no problema que se quer resolver e compartilhem a responsabilidade por sua solução”.
O autor afirma ainda que “a comunicação no processo de mobilização é dialógica, na medida em que não é a transferência do saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores. […] Isso significa dizer que a existência humana é, por si, uma existência dialógica, porque o homem é um ser de relação”.
Mas apenas isso não é suficientemente bastante, na visão de Henriques et.al (2007), que afirma ser “necessário cumprir outras funções que devem estar integradas e articuladas”, como:
Difundir informações – […] a rede comunicativa se estabelece por meio da difusão (divulgação e publicização) do tema mobilizador […] dando visibilidade da iniciativa aos diversos atores.
Promover a coletivização – a simples difusão não é garantia de que as pessoas irão se sensibilizar e participar da mobilização. A coletivização pode ser alcançada pelo sentimento e certeza de que não se está sozinho na luta pela mudança, há outros atuando com o mesmo sentido e propósito.
Registrar a memória do movimento – a existência de um banco de dados e outros modos de organização do acervo e da memória do movimento com o intuito de registrar sua trajetória também é fundamental para fortalecer a mobilização.
Fornecer elementos de identificação com a causa e com o projeto mobilizador – cabe à comunicação uma articulação entre valores e símbolos no processo de construção da identidade de um movimento, estabelecendo uma maneira estruturada a produção de elementos que orientem e gerem referências para a interação dos indivíduos, possibilitando, assim, um sentimento de reconhecimento e pertencimento capaz de torná-los corresponsáveis.”
Busca-se então na comunicação a ferramenta para articular a necessidade de mobilizar e conscientizar a sociedade sobre a redução de geração dos resíduos. É importante lembrar que a comunicação passou por uma verdadeira transformação nos últimos anos, haja visto o processo de globalização, que rompeu de vez com os limites geográficos, principalmente a partir da evolução tecnológica, que interligou países, processos, informações e pessoas de todo o mundo.
Conforme Castro (2012), as mudanças do mundo analógico para o digital impactaram profundamente as relações e influências na vida social. “Uma das características mais marcantes desse processo de mudança é a passagem da comunicação unidirecional (produção-mensagem-recepção) para a comunicação bidirecional, dialógica e interativa”, que se resume: “Produção-mensagem-recepção-resposta ao campo da produção. Nesse sentido, a digitalização permite recuperar o sentido latino da palavra comunicação, no sentido de comunhão e compartilhamento.”
Uma política pública de reciclagem
O uso dos aparelhos celulares inteligentes (smartphones), com acesso à internet e cada vez mais difundidos, principalmente entre jovens e adolescentes, e também as redes sociais permitem uma vastidão de conexões, compartilhamentos de ideias, imagens (fotos e vídeos) e também a troca de informações, pensamentos e reflexões. Como atualmente vive-se uma realidade cada vez mais digitalizada, em que “novos atores sociais vêm aparecendo no cenário midiático – “eles acessam e se apropriam das novas mídias de maneira formal (através de cursos) ou informal” (Castro, 2012) –, seria possível pensar a difusão de informações sobre a nova política de resíduos por canais/plataformas diferenciados.
Para se ter ideia, segundo dados do Relatório Consolidado Indicadores de 2012 a 2016 da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o ano de 2016 fechou com 244.066.759 de linhas telefônicas móveis em operação no Brasil, para uma população de 205,2 milhões de pessoas. Diante disso, pensar como usar essa poderosa ferramenta em favor do meio ambiente e da melhoria da qualidade de vida nas cidades é um desafio interessante. Pode ser por meio de parceria com as operadoras de telefonia? Sim, por que não? Elas também têm sua responsabilidade dentro da política nacional de resíduos. Os fabricantes de celulares também, já que são responsáveis pelo recolhimento das baterias e aparelhos inservíveis. Todos da cadeia produtiva são responsáveis. O setor de eletroeletrônicos já está se organizando e discutindo como trabalhar essa logística.
Além dos meios de comunicação mais tradicionais, como TVs e rádios, e, claro, via projetos nas escolas, as prefeituras de todo o país poderiam pensar em como articular seus cidadãos para a questão dos resíduos fazendo uso das redes sociais mais acessadas por jovens (Facebook, Snapchat, Instagram e Twitter) para difundir não apenas conceitos, mas também programas de educação ambiental e mobilização social.
Produzir vídeos, fotos e textos curtos informativos, usando essas plataformas, seria uma forma de colocar a temática no cotidiano da cidade pelo meio digital, além de esquetes e peças teatrais em praças, parques e locais de grandes aglomerações. Esse tipo de campanha de comunicação pode se tornar uma ferramenta ágil e efetiva em municípios de pequeno a grande porte, desde que com um planejamento bem executado e com foco no resultado de diminuir a geração de resíduos e alavancar uma política pública local de reciclagem.
Novas ferramentas de comunicação estão aí e devem ser usadas para que o tema de resíduos sólidos seja amplamente divulgado. Campanhas de educação para o cidadão devem fugir das antigas e corriqueiras cartilhas. Afinal, economizar papel é um dos primeiros passos que deveriam ser seguidos para manter mais florestas de pé e evitar o desperdício.
Por Cristiana Cyrino Borges de Andrade e Cláudio Magalhães/Observatório da Imprensa
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Cristiana Cyrino Borges de Andrade e Cláudio Magalhães são, respectivamente, jornalista e mestre em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local e jornalista, doutor em educação e professor do Centro Universitário UNA