terça-feira, 24 de maio de 2011

EXCLUSÃO SOCIAL X INCLUSÃO ESCOLAR: PRIMEIRAS PALAVRAS...


As múltiplas formas de exclusão social, bem como as mudanças na forma de seu combate, têm transformado a noção de igualdade e diversidade entre o século XX e  XXI. Fala-se muito em inclusão sem que se tenha o cuidado de entender que para incluir é necessário compreender as múltiplas formas de exclusão que permeiam o nosso cotidiano. Sobretudo no que diz respeito ao Sistema Escolar. 
Diferentes pensadores discutem a questão da exclusão social, sob os mais variados aspectos
Paulo Freire trabalhou a questão da exclusão em diversas obras, sempre foi sua preocupação entender a fragilidade do educando para incluí-lo de fato enquanto sujeito de sua história. No seu livro “Pedagogia do Oprimido”, obra escrita no ano de 1968,              Freire inova ao apresentar o oprimido como sujeito capaz de opinar de modo fundamental na construção de uma pedagogia . Ele discutiu de modo claro, os desejos e confusões que o opressor consegue despertar no oprimido, chegando a confundir os objetivos de suas lutas. Contudo, acreditava que propiciar autonomia a esse público, seria a forma correta de alcançar a educação. que atendesse realmente às necessidades do seu meio.
Bourdieu discute a forma como a escola trata como iguais sujeitos absolutamente diferentes. Sua abordagem retrata como tal pedagogia tem o poder de causar a exclusão ao legitimar as desigualdades sociais. Sua obra tornou-se um marco na sociologia da educação, ao tratar os alunos como atores socialmente constituídos
Boaventura discute a modernidade como processo de exclusão, uma vez que o Norte impôs ao Sul a sua cultura, fazendo uma associação da modernidade com o colonialismo. Diferentes formas de conhecimento foram excluídos, como se a ciência pudesse dar todas as respostas. Em seu trabalho “ Epistemologias do Sul” ele trata do sofrimento dos povos e culturas silenciados pelo capitalismo e colonialismo através de sua imposição universal.
Embora o tema desperte discussões apaixonadas,  reverter os seus reflexos não é tarefa das mais fáceis. Quando falamos em exclusão a primeira idéia que vem à mente diz respeito a pobreza. Segundo fontes do IBGE e IPEA, no Brasil, a renda dos 50% mais pobres é quase equivalente à renda do 1% mais rico. Esses dados só refletem o fato de que  a formação da sociedade e a ação do Estado no Brasil foram, desde o nascimento da Nação até praticamente o final do século XX, dramaticamente concentradores de renda e de oportunidades e, portanto, geradores de desigualdade e de distintas manifestações de formas de exclusão.

A exclusão muitas vezes se dá de modo sutil, sobretudo quando nos reportamos às salas de aulas, onde alunos com trajetórias diferenciadas têm tratamento e são exigidos de modo absolutamente igual; ou mesmo quando existe um tratamento diferenciado que por não ser pensado em sua totalidade, acaba marginalizando o indivíduo ao situá-lo à margem das atividades cotidianas e ainda assim, acredita-se que esses alunos estão sendo incluídos no sistema escolar.
Naturalmente não podemos dizer que é simples definir uma maneira para tratar cada aluno, respeitando suas peculiaridades para não correr o risco de excluir. A questão é muito mais complexa e exige uma abordagem minuciosa para determinadas situações. O que não podemos fazer é tratar de um tema tão abrangente como se estivéssemos falando simplesmente de uma postura paternalista de inclusão sem uma compreensão da sua profundidade.



domingo, 22 de maio de 2011

Livros, canetas e lágrimas : o cotidiano escolar de crianças e adolescentesque sofrem bullying e seus reflexos no desempenho escolar

Em diferentes escolas de diferentes lugares, com as mais diversas realidades sociais, existe um drama silencioso que adentra no cotidiano dos alunos envolvidos causando dor, medo e algumas vezes consequências trágicas. Estamos falando do bullying. De acordo com Aramis A. Lopes Neto, Sócio Fundador da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infancia e à Adolescência (ABRAPIA). Coordenador do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes:  
      “Por definição, bullying compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudante contra outro(s), causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder”. (NETO,2005).
            Em seu artigo  Bullying – comportamento agressivo entre estudantes, ele diz ainda:
“A adoção universal do termo bullying foi decorrente da dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence, de maio a junho de 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra bullying dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em países como Alemanha, França, Espanha, Portugal e Brasil, entre outros18.”(NETO,2005).
Embora sua existência seja uma realidade indiscutível,  no Brasil, o tema só passou a  despertar interesse na comunidade científica por volta dos anos 80, e ainda assim, sem muita expressividade. Consequentemente, sem a devida atenção, o problema tem destruído muitas vidas, enquanto tratado com naturalidade. Naturalmente, trata-se de uma discussão consideravelmente complexa, uma vez que põe em pauta a questão  da violência, suas diferentes formas e o despreparo do sistema escolar para lidar com essa situação.
Em algumas situações, crianças e adolescentes vítimas de bullying acabam sucumbindo ao sofrimento mudo que se prolonga, sem que os adultos de referência consigam reverter a situação, na maioria das vezes por não compreender a dimensão de seus reflexos, e acabam tirando a própria vida como forma de se libertar da tortura que parece limitar seus horizontes para uma realidade de humilhação e limitação. Quando determinada situação acontece, existe uma comoção em torno do problema, no entanto, a discussão restringe-se ao caso específico, sem que exista um aprofundamento da questão.
Outras vítimas reagem de modo adverso e acabam protagonizando tragédias, chegando a matar grande número de pessoas  em suas escolas, como forma de provar que não são insignificantes e que podem causar grande comoção. Além de revidar toda a dor que sentiram durante longo período de tempo, sem o respeito de seus agressores e sem o empenho da instituição escolar para reverter o problema; a vítima vinga-se também dessa omissão ao causar dor a diferentes atores da comunidade escolar. Pesquisadores como Watson, Andreas, Fischer e Smith (2005) apresentam os fatores ambientais como significativos no comportamento dos estudantes atiradores, contudo, ressaltam a necessidade de que mais pesquisas procurem decifrar o que poderia motivar adolescentes a atos tão medonhos.
No artigo “De columbine à virgínia tech: reflexões com base empírica sobre um fenômeno em expansão”, Vieira, Mendes e Guimarães apresentam argumentos que levantam a possibilidade de que o bullying teria forte influência no desfecho de tragédias escolares.
“Um relatório detalhado apresentado pelo Serviço Secreto dos Estados Unidos em parceria com o Departamento de Educação dos Estados Unidos (United States Secret Service & United States Department of Education, 2004) revisou mais de 30 episódios (entre massacres e tentativas), buscando compreender o fenômeno e desenvolver possíveis propostas de prevenção. O relatório afirma que não há um perfil característico dos estudantes atiradores (nem psicológico nem demográfico), pelo menos não de forma acurada. Chama a atenção, todavia, o fato do relatório não descartar que há variáveis que podem ser identificadas em boa parte dos incidentes desta natureza. Dentre estas, ressaltam-se a dificuldade dos atiradores em lidar com perdas significativas e falhas pessoais, interesse por mídia violenta (filmes, jogos, livros e outros), o fato de terem sido ou estarem sendo vítimas de perseguições e humilhações de colegas, a manifestação de comportamentos anteriores que sinalizavam que eles precisavam de ajuda, dentre outros.” (VIEIRA; MENDES; GUIMARÃES,2009).
Tais situações têm razoável repercussão e conseguem espaço na mídia por algum período de tempo. Sem que isso tenha um peso real na continuidade do problema. No entanto, milhares de pequenas vítimas passeiam sob nossos olhares descuidados todos os dias no cotidiano de nossas escolas. Não acreditamos e não esperamos que nossas crianças tirem as próprias vidas ou saiam matando inocentes por aí. De fato, a maioria não o fará, contudo, como está o desempenho de nossos meninos? Será que nossas silenciosas vítimas estão conseguindo vislumbrar um projeto de vida enquanto batalham todos os dias por um pouco de dignidade?
O processo de aprendizagem perpassa por diferentes fatores, estar biologicamente bem, não torna o indivíduo automaticamente apto ao conhecimento. É preciso despertar o desejo pela descoberta, pela aprendizagem. É fundamental que exista uma compreensão de porque estamos buscando esse conhecimento, em que ele nos será útil. A auto estima tem um papel preponderante nesse processo. 
É pertinente dizer que perscrutar os reflexos do bullying no desempenho escolar dos alunos envolvidos é fundamental para reverter os prejuízos causados.