domingo, 12 de junho de 2011

Referendando...PERRENOUD, PHILIPPE. A pedagogia na escola das diferenças: fragmentos de uma sociologia do fracasso. Porto Alegre; Artmed, 2001; 2ª edição.

A obra de Perrenoud trata dos diferentes aspectos a serem considerados na problemática do fracasso escolar, abordando a dificuldade do sistema escolar em respeitar a heterogeneidade dos alunos como principal causa e analisando de modo crítico o papel de todos os atores envolvidos e sobretudo de quem o autor afirma ter fundamental importância nessa discussão: o professor.
            O autor discute a diferenciação entre os alunos citando Bourdieu quando trata da bagagem cultural que cada indivíduo traz e como essa diferença poderá familiarizar ou exilar o aluno em função do que cada um apreendeu ao longo de sua vida,                                                                         analisando os vários aspectos que permeiam a questão. Tratar os alunos como iguais em direitos e deveres , quando na realidade é evidente que são muitas as diferenças entre eles, acaba por favorecer uma parte deles em detrimento dos demais. O que traz à tona a discussão de que a diferenciação poderá beneficiar as elites, dependendo do modo como o profissional desenvolva a sua prática.  Perrenoud defende que os percursos são necessariamente diferenciados, ainda que não pareçam a primeira vista, uma vez que a história de vida, as aspirações  e até mesmo a atenção que o aluno tem a determinadas aulas interferem no que cada um aprende, sendo  portanto impossível avaliar o percurso de cada aluno. Desse modo ele afirma que toda proposta didática será inadequada para uma parcela dos alunos. Portanto, faz um alerta para que jamais se espere por resultados espetaculares, mas que se tenha consciência de que trata-se de um longo percurso em que nenhum esforço é perdido.
            O papel do professor também é criticamente avaliado, considerado como principal variável a ser mudada. O autor faz uma discussão onde analisa os medos e as vaidades que se impõem a muitos profissionais, impedindo que assumam o compromisso de adotar uma pedagogia diferenciada com vistas a vencer o fracasso escolar. Nesse aspecto,  trata dos lutos que necessariamente precisam ser enfrentados e reconhecidos, para que pesem as perdas e ganhos dessa decisão e percebam que vale a pena enfrentar o desafio. Habituados a serem o centro dos acontecimentos, o professor sente a perda de poder e agarra-se ao modelo tradicional de ensino. Sua autoridade  também é discutida, na medida em que se questiona como mediar o seu papel dentro da sala de aula, sem uma postura autoritária, mas mantendo a liderança da turma. Outro aspecto que causa temor e luto é o trabalho em equipe, que gera insegurança e conflito de interesses entre alguns profissionais, que se apegam as dificuldades apresentadas e negam-se a abrir seu espaço de relativa autonomia para interferência externa. O autor defende que sem um trabalho conjunto, onde toda a comunidade escolar se envolva no processo de mudança, não será possível vencer os desafios da diferenciação. 
            A relação professor x aluno é avaliada, considerando a dificuldade do professor em aceitar determinadas posturas, bem como , até que ponto os alunos estão dispostos a confiar em alguém que faz julgamentos a seu respeito, através de avaliações nem sempre justas. Lembrando que na verdade o professor informalmente acaba conhecendo muito da vida dos seus alunos, no entanto, ele não apreende a importância dessas informações e acaba por descartá-las ao longo de sua prática cotidiana. Nesse aspecto, ele defende que o professor precisaria dispor de um esquema de classificação e registro de tais informações para poder fazer uso adequado delas. Perrenoud lembra que diferentes profissionais desenvolvem seu trabalho de modo personalizado, como médicos, psicólogos e assistentes sociais, dispondo assim de condições adequadas para compreender a individualidade das pessoas para as quais trabalham; o autor defende que se a profissão de professor tivesse sido pensada da mesma forma, não haveria uma incidência tão grande fracasso escolar, uma vez que não haveria dificuldade alguma para compreender a diferenciação de percurso de cada aluno e ajudá-lo a encontrar o caminho adequado para alcançar o sucesso escolar.
             A escola também é avaliada por Perrenoud quando questiona seu papel  apontando-a como responsável por fabricar o fracasso escolar. Para ele existe uma tríplice fabricação do fracasso por parte da escola; em primeiro lugar através do currículo, que desconsidera as diferenças  tanto do ponto em que partem , como nas condições de avançar, o que certamente favorece àqueles que estão familiarizados com as normas. Em seguida ele discute o problema da indiferença às diferenças como sendo o segundo modo de fabricar tanto o sucesso como o fracasso escolar.  E finalmente, o momento e o modo de avaliação, afirmando que a importância que a escola dá a hierarquia é decisiva na construção do que se reconhece como sucesso ou fracasso e que interfere diretamente no desempenho escolar.
             Outra questão trabalhada no livro é a sistematização da diferenciação, lembrando que  é essencial que existam regras de funcionamento negociadas com os alunos e um mínimo de disciplina para que todos compreendam a finalidade do sistema e passem a acreditar nele. A  avaliação tradicional é discutida, quando o autor questiona se os alunos que não passam pela avaliação tradicional na fase escolar, ao deparar-se com uma avaliação seletiva  para disputar com àqueles que estão habituados ao sistema  sentiriam dificuldades ou se seriam autônomos e preparados o suficiente para enfrentar diversas situações que se apresentem sem dificuldade.
            Por fim, Perrenoud lembra que a diferenciação não precisa ser pensada como uma coisa acabada, mas como uma construção que deverá ser continuamente construída em razão da complexidade e diversidade de situações.
            Fazendo uma breve apreciação da obra , pode-se dizer que trata-se de uma abordagem bastante completa da problemática da pedagogia  diferenciada como enfrentamento do fracasso escolar. A complexidade do tema traz consigo diferentes perspectivas que são discutidas de modo claro e coeso. Considero a obra essencial como referencial teórico para quem trabalha com questões voltadas à educação. Os temas discutidos trouxeram-me uma nova roupagem ao entendimento que tinha acerca do assunto, possibilitando um aprofundamento das idéias prévias ao fomentar um novo olhar à  antiga questão . 

2 comentários:

  1. Olá, Aparecida Cunha.

    Estava procuranco o livro na internet e me deparei com a sua resenha. Super completa. Parabéns pela abordagem. Esse livro está na bibliografia dos candidatos ao mestrado de educação na UnB, Brasília. Vou guardar o seu estudo e caso eu venha a ser um candidato, pretendo fazer uma releitura. Obrigado e sucesso pra você! Francisco Régis.

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  2. Muito bom o seu resumo... parabéns! Sucesso e felicidade.

    Prof. Luziano

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