segunda-feira, 25 de julho de 2011

Referendando...Perrenoud Philippe. Pedagogia diferenciada: das intenções à ação.Cap. 2. Porto Alegre. Artmed.2000



O capítulo 2 do livro trata da situação atual em torno do fracasso escolar e a proposta de uma Pedagogia Diferenciada como solução para reverter o problema; citando os obstáculos que se colocam para a sua efetivação.
            Perrenoud trata inicialmente de como surgiu à noção de que havia necessidade de uma pedagogia diferenciada, tendo em vista que a deficiência sociocultural tornou claro que o fracasso escolar não era uma fatalidade, mas estava fortemente ligada a condição social da família.
            Em meados dos anos 70, as divergências acerca do assunto levaram ao questionamento quanto à possibilidade de lutar contra o fracasso escolar em uma sociedade completamente desigual.
            Autores como Althusser, Bourdieu e Passeron, Baudelot e Establet argumentavam que o sistema escolar exerceria uma função de reprodução das classes e das hierarquias sociais, sendo, portanto ingênuo acreditar que haveria empenho por parte das classes dominantes, para reverter o fracasso escolar. Sobretudo porque a situação favorecia os seus filhos, perenizando as relações sociais. “A luta contra o fracasso escolar deslocava-se para o terreno político. ”      (pag. 39)
            Berthelot (1983), procura atenuar tais afirmações ao defender que a lógica de perpetuação da ordem social nem sempre coincidem, a busca de uma posição favorável para a nação na competição mundial seria razão suficiente para a democratização dos estudos. Desse modo, a escola contribuiu para a emergência de uma classe média instruída.
            Atualmente, percebem-se intenções democratizantes que levam a crer que os governos estão interessados em acabar com o fracasso escolar, no entanto, existe uma enorme distancia entre as palavras e as práticas administrativas e educativas, fazendo com que muitos se acomodem alegando não ter meios para reverter o quadro, uma vez que o governo não faz a sua parte.
            Contudo, é crescente o número daqueles que acreditam em uma Pedagogia Diferenciada, através de zonas de educação prioritária, criação de ciclos de aprendizagem e avaliação formativa.
            Trabalhar a diferenciação é o grande desafio, é preciso cuidado para não hierarquizar ao dividir os alunos, ampliando as diferenças. Atentar para a diversificação dos procedimentos e atendimentos através de uma regulação proativa é um meio eficaz para assegurar a igualdade.
            No entanto, o autor levanta dois problemas que precisam ser considerados:
<!     Não funciona criar um modelo de diagnóstico prévio;
<      Existe uma tendência para aumentar as variações.
Embora autores como Meirieu, Cardinet, Allal e Perrenoud tenham desenvolvido pesquisas e criado concepções importantes ã respeito, não conseguiram dar conta dessa complexa questão.
Em seguida, Perrenoud discute como as estruturas acabam defrontando-se com a Pedagogia Diferenciada, segundo o autor: “Todo esforço de diferenciação da pedagogia defronta-se, cedo ou tarde, com o costume...” que seria a escolaridade dividida em etapas.
Há trinta anos tenta-se tornar essa estrutura mais flexível, através de diferentes medidas que lamentavelmente não conseguem dar conta da heterogeneidade dos alunos.
Tentando reverter às dificuldades, diversos sistemas educacionais decidiram pela criação de ciclos de aprendizagem. Contudo, a noção de ciclo é ambígua, tanto pode esconder uma manutenção mal dissimulada dos graus; como pode contribuir para a formação de progressões individuais.
O fato é que a Pedagogia Diferenciada origina uma abordagem inovadora, centrada no aprendiz e seu itinerário. Trata-se da individualização dos percursos de formação.
Os desafios que se colocam articulam-se entre concepções diversas, e às vezes, contraditórias. Sobretudo no que diz respeito à didática, a avaliação, a relação intersubjetiva e intercultural e da própria diferenciação, é importente considerar os seguintes aspectos
Em se tratando da didática, se faz necessário compreender como as crianças e os adolescentes aprendem, qual é o papel do professor, qual o papel da escola.
Em torno da diferenciação, é preciso atentar para a importância de que o professor forneça aos alunos os meios intelectuais e afetivos para ultrapassar os obstáculos.
Quanto à avaliação, o desafio é vencer a concepção tradicional, que tem impossibilitado uma autorregularão das aprendizagens que seria, na opinião de Perrenoud, a forma ideal de regulação com vistas a não separação entre didática e avaliação.
No que diz respeito à relação intersubjetiva e intercultural, Perrenoud afirma que: “diferenciar o ensino coloca em confronto não só diferenças bem visíveis de desenvolvimento, de projeto, de capital cultural, mas também ínfimas e invisíveis diferenças na relação com o mundo, com a vida, com o futuro, com os outros, com a propriedade, com o tempo, com a ordem, com o saber, com o trabalho e com mil outras dimensões da existência. ”
Fazendo uma breve análise da discussão de Perrenoud, acredito ser pertinente atentar para a qualificação docente, tendo em vista que para sair da teoria e entrar na prática do cotidiano escolar, a implementação de uma Pedagogia Diferenciada necessitaria de profissionais altamente qualificados. Para vencer a complexidade da proposta, apenas um trabalho embasado cientificamente poderá oferecer subsídios que permitam reinventar a prática na medida em que surgem os desafios, com vistas a dar conta da reorganização que se faz necessária.
Parece-me que, sobretudo no que diz respeito as escolas públicas, ainda existe uma longa distância entre a qualificação necessária para tamanha ousadia e a realidade dos profissionais que fazem a comunidade escolar como um todo. Profissionais esses, que vivem uma aventura cotidiana ao cumprir minimamente o seu papel, não dispondo de condições para desenvolver seu trabalho satisfatoriamente.
A violência na escola, os problemas socioeconômicos, a escassez de material adequado, bem como a própria qualidade de vida do professor, são problemas que precisam ser enfrentados com seriedade e vontade política.
Muitas mudanças devem entrar em ação, começando pela qualificação do professor, que precisa compreender e assimilar o seu papel no processo de aprendizagem do aluno; bem como a reestruturação do ambiente escolar, e fortalecimento das condições de trabalho como base essencial para criar um alicerce seguro, que possa favorecer a uma Pedagogia Diferenciada que de fato dê conta da complexidade de sua proposta.
A Pedagogia Diferenciada é um grande instrumento da inclusão escolar, uma vez que ao respeitar a individualidade do aluno são fornecidos os meios para potencializar a sua aprendizagem.

Analisar a qualidade dos serviços ofertados aos alunos com dificuldades de aprendizagem por diferentes razoes, mostrará o quão distante estamos da proposta de uma Pedagogia Diferenciada, de que forma essa distância tem prejudicado a escolarização dessas crianças, bem como a viabilidade de reverter o quadro de fracasso escolar através da discussão proposta no livro de Perrenoud.

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